Entrevistar é um dos maiores prazeres de ser jornalista. Falo por mim, claro, mas acredito que quem não tem a curiosidade da pergunta, dificilmente pode ser jornalista. Na entrevista, a curiosidade da pergunta - que é diferente da curiosidade da resposta - pode tornar-se um frenético ping-pong ou o mais aterrador dos palcos. É garantidamente dos silêncios mais ensurdecedores aquele que se "ouve" a um entrevistado. Mas o que Marc Pachter nos traz nesta TED Talk, indo bem além do exercício do jornalismo, é absolutamente convergente com um sentimento que por vezes já expressei, nomeadamente quando modero uma conferência ou quando entrevisto alguém diante de uma assistência. Não há duas conferências ou entrevistas iguais, mas quando corre bem, fica um sentimento muito bom de realização. Cumpriu-se algo. Contou-se uma estória. Materializaram-se momentos que até aí existiam apenas na vivência do outro, o entrevistado. E nas vezes que isso acontece o meu sentimento, enquanto entrevistadora, é que nada disto está nos manuais de comunicação ou de jornalismo ou outros.A técnica só existe para nos podermos esquecer dela e numa entrevista, como diz Pachter, o que conta mesmo é a empatia. Empatia não significa subserviência ao entrevistado, nem colagem às suas posições. Significa que estabelecemos contacto, de alguma forma, e que chegámos ao outro lado. Pachter vai mais longe e diz que é determinante "sentir o que o outro tem para dizer" e tornar-se "agente dessa comunicação". Mais determinante, diria eu, é a sua observação sobre a saída da "concha" do "public self". "Todos nós temos infomercial de nós mesmo que é aquilo que publicamente dizemos que somos e que fazemos. A boa entrevista acontece quando nos tornamos privados, quando vamos além do infomercial". E não é nada fácil nesta mediocracia em que todos preparamos o nosso "statemeent", o testamos e ensaiamos. Verdadeiramente extraordinária é a observação que este TED Talker faz sobre as pessoas que convidamos para uma entrevista. "Nunca convidem uma pessoa modesta. Os entrevistados têm de ser pessoas que acreditam que têm uma história interessante para contar e que a querem partilhar". Marc Pachter foi responsável pelo projecto "Living Self Portraits" no Smithsonian onde entrevistou dezenas de pessoas imodestas cuja memória garantiu às gerações futuras. Eu não me importava mesmo nada de fazer o mesmo (a entrevista, bem entendido).
Perceber estes novos consumidores e reorganizar oferta de conteúdos e modelo de negócios é, todavia, tudo menos simples. Rory Sutherland, vice-chairman do Ogilvy Group, no Reino Unido, apresentou uma boa ilustração dessa evidência. “Veja-se o que se passa com as campanhas de responsabilidade social e o público jovem. Nenhum jovem faz donativos na rua ou nos eventos. Primeiro porque têm pouco dinheiro e precisam dele para a cerveja e afins, e depois porque os jovens consideram que essa é uma missão dos pais ou do Estado. No entanto, se a campanha lhes chegar ao telemóvel e bastar enviar um SMS contribuem em grande escala e nem pensam no dinheiro”. Conclusão: a escolha do canal, para efeitos de modelo de negócio, é tão decisiva quanto a escolha do conteúdo. Outro exemplo está na compra de mais velocidade/largura de banda: “o consumidor dispõe-se a pagar um upgrade de velocidade, mas acha inconcebível se lhe aumentarem o preco do conteúdo … que é na realidade o motivo porque quer mais velocidade”. Ou seja, há conteúdos que os consumidores acham impensável pagar num canal e que pagam sem problemas noutro e há conteúdos que é preciso empacotar com a plataforma certa para que seja retribuído o seu valor. “Faço escolhas estúpidas por razões de conveniência ou preguiça tão básicas quanto o facto de ter o meu telemóvel mais perto de mim do que o PC”.
Decorre hoje, 26 de Novembro, a I-COM National Roundtable que tem por objectivo lançar o debate sobre o futuro da medição dos Media On-line. Um tema mais pertinente do que nunca numa época em que se multiplicam conteúdos e questões sobre os modelos de negócio que os suportam. Partilho aqui uma das conferências a que assisti no IBC, em Amsterdão, em Setembro deste ano (é o último audio na página cujo link anexo). O tema era "Who pays? Winners and Losers inthe new economy". Falou-se muito de televisão - 2 mil milhões de ecrãs no mundo inteiro e taxas de crescimento de 6% mesmo em ano de recessão produzem esse efeito. Mas nenhum dos conferencistas passou ao lado do tema que alimenta as maiores discussões: a convergência do broadcast e do broadband. Eram eles, os conferencistas: William Cooper, da Informitiv, Ed Shedd, Deloitte UK, Tom Marrods, Screen Digest e Gerry O'Sullivan, da SKy TV e responsável pelo canal 3D da operadora a quem coube as proféticas palavras: "os vencedores serão quem investir em conteúdos e em inovação e só o poderão fazer com um modelo de negócio sustentável".
Jornalista, gestora, empregada, patroa, professora e sempre aprendiz. Mãe do Miguel e da Margarida que são os meus principais interesses na vida. Entre os outros contam-se alguns prazeres da cozinha, algumas tarefas com as maravilhosas máquinas que nos rodeiam. Gosto descobrir pessoas e as coisas espantosas que são capazes de fazer. E gosto de me encontrar, a mim e aos outros, nos livros, na musica, no cinema.